11.4.09

Alterwords

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A minha participação:(pag 17/18)

A Borboleta

A borboleta abriu as asas.
Pétalas amachucadas, de quem acaba de nascer.
Efémera flor de verão.
Absorveu os campos de malmequeres, e acordou.
As nuvens escureceram, e um vento estranho varreu a terra.
Os ramos das árvores estalavam mortalmente, em sangue e seiva.
Flores vivas, sufocadas, em remoinho.
A borboleta recém-nascida pensou “Que estranho é o mundo…!”
Antes de chegar o tornado, tinha morrido despedaçada.
Asas desfeitas. Lagarta perdida.

Quantos abismos guardam os olhos de um ser errante?
Quantas velas ao vento, rasgadas. Incontáveis naufrágios.
O esquecimento, é um mal necessário para poder sobreviver.
São histórias de vagas gigantes, monstros marinhos e sonhos decepados.
Esqueletos de borboleta fossilizados.
Rocha incrustada numa montanha pedregosa, onde outrora se estendia um prado verde.
Tantas vidas depois, a mesma solidão. A mesma surpresa disfarçada.
“Que estranho é o mundo…!”

O mundo das ideias, é mais uma estrela apagada na ilusão de alguém que um dia sonhou
sair da caverna, sem ficar cego pela luz.
Num mundo de borboletas, somos a história contada pelos fósseis.
Areia cristalizada num deserto onde o calor acende miragens e atordoa o pensamento.
Passos e mais passos. Pegadas em circulo.

Caiu desamparada sobre si própria.
Sem motivo aparente, escorregou nas circunstâncias.
(Ou foi o destino que a empurrou…?)
Pucha o cordel. Aperta o botão. Boneca articulada.
Se lhe rasgassem a barriga, ficaria admirada com tanta areia e serradura!
Comprimiu o crânio com garras de ave de rapina.
Cansada de existir.
Porque é que ninguém via, que ela era uma borboleta?
Dos seus ombros elevavam-se delicadas asas brilhantes. Transparentes.
Asas mágicas, invisíveis.
Como poderia viver no chão?
Como deixaria de procurar o campo de malmequeres, a sua casa?
Desistiu de tentar explicar e resignou-se a fazer de conta que-não-era-quem-dizia-ser.
Confinou a existência ás quatro paredes da normalidade, profundamente infeliz.
Até que um dia se esqueceu.

Esperava sempre à mesma hora, em frente à paragem do autocarro.
Todos os dias, o via partir, sem que um só musculo se movesse na sua direcção.
Regressava a casa a chorar.
(Vou? Fico? Não sei. Talvez amanhã. Talvez depois.)
Porque haveria de ser de outra forma?
Porque, precisamente naquela manhã, foi picada por uma abelha providencial, e teve
mesmo de correr!
Apanhou o autocarro sem pensar, rumo ao desconhecido.
Cada novo lugar, é uma folha em branco a um sem fim de possibilidades por escrever.
É sempre difícil rasgar os dias que ficam para trás, porque podemos fugir de quase tudo,mas não de nós mesmos.
A mente é pesada e inevitável, como uma carapaça em construção que temos sempre de
transportar.
Podemos deixar a noite esvair-se em sangue até à luz se apagar, ou simplesmente
aprender a conviver com ela.
Por isso, uns são malmequeres enraizados, e outros, cegas crisálidas, à espera do
momento certo para existir.

Borboletas soltas no vento, que o tornado despedaçou.


Inês Soares

4 comentários:

Pepa Xavier disse...

Tao giro, vou descarregar!

Anónimo disse...

No voar da borboleta se encontra o mundo.

Belíssimo texto.

Giraldoff

Tany disse...

O texto é lindíssimo, Inês! Parabéns!

Bruno Pereira disse...

Ines, a Alter ja vai no oitavo número e continuas convidada a participar :)